domingo, 4 de janeiro de 2009

Fingir

Eu finjo bem, sem qualquer maquiagem e até a calçada da rua me serve de palco.
Disfarço todas as lágrimas que nasceram na noite passada e engulo toda a raiva com meia dúzia de palavras bonitas no outro dia, ou um livro de memórias.
A bolsa pesada a tiracolo que carrego com todas as pedras acumuladas disfarço bem, com um belo acabamento e cor que atrai todos os olhares a ela e não a seu conteúdo.
Mascaro essa solidão com páginas de caderno, e as vezes finjo até para mim que já te esqueci e que saber que seu número nunca mais vai me ligar não faz falta nem diferença.
Faço um jogo civilizado, para não sobrarem papéis na escrivaninha para os atores, distribuo bem o papel e quase sempre esqueço que sou todos eles- de mocinho a vilão. E no fundo, no fundo ainda preferia ser a pedra do cenário.
Essa enxaqueca camuflo com uma cartela de remédios nova que o farmacêutico me recomendou.

A noite não finjo e por isso choro de soluçar agarrada em coisas que me lembram você e desse jeito tento afogar a saudade que me corroí o coração.
A insônia, derivada do ocorrido, vira poema.
E do poema nascem outras coisas, que podem me fazer enganar a insônia.
E no fim dela só resta a xícara de chá fria e a cartela vazia de remédios.

Finjo até meus pensamentos para mim mesma aumentando o volume da música e sem prestar a atenção em nada me perco.
E como as casas de espelho poucas vezes monta seu palco eu fico assim, fingindo bem.

Mas vezes ou outra desisto de disfarçar e sei bem tudo que sinto: sinto sua falta, e tudo que eu queria era pegar esse primeiro ônibus e ir até sua casa te roubar, sem pensar em consequências, advertências, ou perigos.