
"O que aconteceu comigo é apenas um caso isolado e não teria grande importância se não resumisse a maneira como se procede com muitos outros além de mim. É por esses que falo aqui, e não por mim.” [Franz Kafka].
Parte I
Não existem começos para contos, sentimentos não têm cronologia e os fatos encadeiam-se diferente da nossa vontade, assim como na vida.Lembro-me de quando era mais jovem e planejava em folhas gastas meus projetos para a vida e estabelecendo metas que pareciam ser a solução mais provável, mesmo quando me afogava em fracassos seguidos e consecutivos.
Com o passar do tempo descobri que tudo que possuía de bom era levado sem grandes explicações, ou motivos. O mais dolorido é que ninguém pretende saber seus motivos, é bem mais simples acreditar que é rancor genético assim como meus pais também possuíam. A verdade é que me lembro claramente da carta que redigi ao meu primeiro grande amor, uma paixão amiga na qual eu simplesmente não sabia quais eram os limites do sentimento fraternal e os desejos carnais.
Eu acordei te odiando, por amar-te tanto e ser um sentimento vago e desprendido da realidade imposta a nós. E por me deixar tão livre e dizer que queria prender-me.
Eu simplesmente não entendia da onde surgiram misteriosamente todos os meus sentimentos por aquela criatura...
Não entendo seus cabelos sobre a luz da manhã, ou entrelaçados nos dedos de outros. A sua respiração compassada que continua existindo indiferente a minha que farfalha e perde-se no ritmo, não acompanhando a partitura planejada.
Aquela vida que seguia indiferente a minha, cedendo-me vez ou outra, migalhas de atenção e sentimentos que me deixava crédulo e andando no caminho traçado nas linhas da sua mão...
E amanhã pretendo deixar-te partir, sem despedidas longas e choros demorados, porque simplesmente desejo ser livre para correr nesses campos que o Sol não conseguiu secar o orvalho e que há meses não piso.
Com o tempo, entendi que nada daquilo nunca seria meu. Nunca. Jamais me pertenceria, e eu simplesmente quis deixar aquela flor ir embora...
E você encostará sua face em outra face, seus dedos entrelaçarão outros, seu riso será destinado a outras vozes e assim, finalmente, tu me esquecerá.
Eu que te amei do ultimo ao primeiro momento e que sempre só tive a ti ficarei só mais uma vez e serei como a rocha.
E mais do que tudo, eu entendi que ela não seria minha, mas sim de tantos outros. E assim criaram-se os primeiros espinhos no meu entorno e jamais amei alguém como amei aquela pequena que perfumava meus dias e encantou-me infinitamente.
E é por isso que pretendo contar a ti, leitor, por cima dos seus ombros, sobre essa estranha personagem, e para que assim sua vida possa ser mais feliz, como a minha também foi por um curto espaço de tempo.
Escreve-se para desabafar. Por falta de amigos e amantes. Para aumentar o ego através do elogio de suas desgraças particulares, e é por isso que escrevo essas linhas. E é por falta de amor que se lê também, e se gosta pela ausência de outras coisas para gostar desse mundo que nos deixam duros como pedras e distantes como a águia do alto céu.
No princípio, os sentimentos eram bem claros e definidos, e com a distancia que era imposta a nós, mesmo estando lado a lado, preservava-se minha sanidade mental. Com a proximidade forçada pelo mundo pouco a pouco perdi completamente meu controle, tomando-me por sentimentos que jamais haviam outrora tomado parte do meu espírito. E assim, diariamente, travava lutas comigo mesmo, sem outro inimigo se não o amor que nunca acabava, a qual as pessoas chamavam de amizade.
Amizade é o melhor dos amores, não existe mais perfeito e nem o mais defeituoso.
Não consigo me recordar que circunstâncias levaram-me a ter a figura em minha vida, ou melhor, os motivos. Na época era distante de todos e tudo e possuía uma dificuldade monstruosa em realizar amizades, mas desde o primeiro instante que a observei tornei-me seu amigo.
Quem nunca amou não sabe como é amar, e eu não sabia. Não tinha ciência dos limites e ainda mais das ações que se realizaria no cotidiano.
Com o tempo aprendi que ter um amigo era também ter ouvidos, mãos, e boca a sua disposição. E eu queria aquilo. Todos os dias eu almejava atenção.
Até os dias atuais ainda sinto as lágrimas caindo dos meus olhos, mesmo que elas sejam inexistentes. E os pontos em feridas que nunca cicatrizaram.
Mas eu te amo, e você tem que acreditar... Eu te amo....
Infinitas vezes tentei desviar meus olhos daqueles olhos e seguir em frente indiferente da sua sombra que ficava, mas ao ouvir suas palavras caindo silaba por silaba de sua boca eu ficava, segurava suas mãos, apoiava meu rosto em ti e simplesmente os olhos queimariam mais uma dúzia de vezes devido a esse amor.
Não seja tão má comigo... Puxa... Você não pode querer se vingar...
E muitas vezes escutei isso, senti-me culpado e mau enquanto eu sofria caladamente todas as dores.No fundo eu sabia que a culpa era minha...
Minha por permanecer enquanto deveria correr e por sentar-me nas oportunidades sabendo que dali a pouco tudo desmoronaria sobre minha cabeça e mais uma vez eu desmanchar-me-ia em lágrimas e soluços... E por isso sentia-me culpada...
Por que você ta assim? Não fica assim... Eu... Eu to aqui...
E essa sentença foi dita milhares de vezes, recitada como um discurso decorado...
Depois de algum tempo eu nada mais senti. Nem dor, nem alegria, nem medo, nem nada. Era simplesmente casca. Nada me tocava a pele... Batia no meu eu e caia no chão, e eu aceitava simplesmente.
As poucas vezes que sentia algo era por pura teimosia e eu lia linhas rotas com sua letra, onde eu via o nome dele todo decorado.Era meu passo ao desfiladeiro. E ao ler mais, eu encontrava a sua Assinatura única no fim da carta. Era meu medo de morrer. Eu o calor dos braços da loucura e o medo da insanidade.
“E agora que eu amo você, meu mundo não precisa nunca mais girar...You don’t care my how I fell, I don’t fell it anymore...I love the sound of you walking away...”
E toda minha discografia passava pela minha cabeça e eu enlouquecia pouco a pouco... Com musicas que pareciam ser escritas com meu próprio sangue consagradas com entorpecentes.
Enfim você aprende que nada cicatriza e que a ferida sempre sangra.
E não deixam de cair gotas de sangue agora pela minha mão e pelos meus olhos enquanto tudo isso acontece...
E como começar de novo se a ferida que sangrou acostumou a me sentir prejudicado?
E hoje sou rochedo, pedra morta e sem natureza, acertada sobre um alto morro sem vontade ou desejo.
E aqui estou mais seco que essas folhas que tu lês agora.
E nada me importa.
E como um bravo guerreiro marcho, sem esperanças, e por isso sou mais forte. Por não temer nem sequer a morte, pois nenhum motivo tenho para prosseguir a vida.
Abro meus braços a vontade do destino e entrego-me a esse suposto Deus existente que me persegue.E sangro sem ninguém para secar-me e sofro sem bálsamo para curar-me.Entrego-me a vida.
E agora o vento leva todas as folhas de minha prancheta com os antigos desenhos coloridos e deixa essas lágrimas mais geladas.