sábado, 27 de dezembro de 2008

Parte III

Parte III
Seus cabelos negros caiam pelas costas, e o algodão branco do pano alvo que cobria seu corpo mesclava-se com as cores de um campo de centeio e pela milésima vez, Golden Calfield, veio falar-me, somente a mim e a dezena de personalidades que vagavam pela minha mente.

"E se você fosse embora, por exemplo, se partisse sem olhar para trás, assumindo a solidão, sabendo que pode ser um erro, um grave erro, mas que você se sentiria bem assim mesmo, faria isso? Perderia a segurança, mas o que significa estar seguro? Alguém está? Você poderia admitir, sem se enganar, que realmente está seguro?"

Enquanto observava a mais graciosa cena da minha vida remoia partes desse livro...

Você... Está tão calado. O que está acontecendo?O que foi?

Assim dividia com ela essas estrofes de livros decorados pela amargura e solidão das noites inacabáveis da minha vida.

Deixe isso para lá não faz sentido algum. Ninguém vai ir embora para parte alguma.

Ficávamos horas entretidas, então, com pássaros voando, o coaxar de sapos, o surgir e o desaparecer de qualquer borboleta nos canteiros espaçados das flores e eu esquecia-me de qualquer rancor, raiva ou amargura.

So if you're lonely you know I'm here waiting for you I'm just a crosshair I'm just a shot away from you and if you leave here You leave me broken shattered I lie I'm just a crosshair I'm just a shot then we can die”

Eu queria acabar com aquilo, aquele sofrimento sem fundamento algum, queria amar menos. E na verdade eu nem sequer sabia se realmente amava o ser que estava dormindo na relva ao meu lado.
E nas suas expressões eu podia sentir a falta que a pessoa a qual eu tinha matado fazia-lhe, mas mesmo assim, nenhum remorso sentia. Era egocêntrico demais para pensar nisso, simplesmente pensava que caso ainda tivesse vida aquele corpo estaria agora junto a ela e não eu.
Não são raciocínios que fazem sentido, nem fatos, devo confessar. E até os dias de hoje, nessa sela escura que estou sentado, não consigo entender como a polícia e suas investigação não descobriram prontamente que o autor daquele crime tratava-se da minha pessoa, talvez por fazer o perfil de um Ser Humano muito sobreo e controlado.
Ainda creio que não fui eu quem matou aquele homem, eu apenas realizei o ato, mas dezenas de pessoas inicialmente cometeram aquele assassinato, e com certeza, por estar mais morto que vivo é que executei a ação.
E é por isso que não tenho nenhuma glória em vida, por ser somente e sempre joguete do destino.

Na manhã seguinte quando nos vimos descobri que seus olhos percorriam a direção de outros que não os meus e percebi que seu coração pulsaria mais uma vez indiferente ao meu, que sua respiração seria destinada a um motivo diferente.
E porque diabos ela simplesmente não estava ao meu lado depois do dia tão maravilhoso que tínhamos na recordação?
Foi ai que percebi que somente era na minha mente tudo isso, as recordações, as cores, os cheiros, e mais uma vez a amargura retirou do recanto das minhas memórias algo que poderia tornar-me melhor.
E eu caminhei sozinho todo aquele percurso que sonhei em fazer ao seu lado e que com a morte prematura de um amor pensei que agora nossas mãos nos dariam e finalmente ela seria minha.
Sozinho não, acompanhado de lágrimas quentes que percorriam meu rosto frio e molhavam meus lábios secos.

Eu sempre escrevi, sempre. Não possuía mais nenhum talento que não aquilo, e eu fazia-o, como faço agora. As palavras pareciam ser minhas melhores amigas quando na presença de tantos me sentia sozinho e vazio.
Palavras... Que poder elas possuem. E, no entanto, nunca me trouxeram prazer, nem uma gota dele. Sabia que sempre que eu escrevia era embriagado em desafetos e solidão e assim gotas de tristeza manchavam, assim como minha única amiga. Nenhum prazer sua companhia me trazia, mas eu necessitava tê-la.
E neste dia em que percorri caminhos mais uma vez só as palavras seguiram-me e assim rabisquei em um guardanapo de um bar qualquer, cheio de pessoas, que nada me influenciavam, algo parecido como uma declaração do assassinato que havia feito. E como estava enganado em dizer que as pessoas nada me influenciariam...